sábado, 13 de setembro de 2014

Coreografia

Se fosse possível uma coreografia
Faríamos algo juntos
Seríamos coletivo
Mas desde jeito calado
Só minhas palavras
Meu silêncio disfarçado em poesia
É o que dá para ser
Seria uma dança se houvesse música
Ou será que alguém já dançou em silêncio? 
“Dance, dance ou estamos perdidos”
Faça coreografia da minha poesia

Pausa de voz.
Pernas no chão, rosto no piso, mãos arqueadas. Movimento. 

Voz:
Em silêncio te descrevo meu corpo
Tuas mãos correm pelos meus pelos
Me desmonto em transe e te deixo no ar. Você cai com as mãos no chão enquanto suas pernas insistem no ar.

Pausa de voz.
Deitado no chão. Tiro meu shorts. Nu. Nua.

Voz:
Há necessidade de rolar no chão, mas não há piso. 
Coreografia para palavras
Silencio para música que não toca. 
Só corpo. 
Ereto. Braços ao longo do corpo. Transe. Cabeça para baixo. Rápido. Mãos epilépticas. 

Chão. Corpo no chão. 
Silêncio. Só o corpo dança.

Pausa de voz.
No ar. No chão. No ar. No chão. No a... No cha... No a... No ch.. No. No. N. N.
Falta de ar.

Voz:
Trouxe comigo o livro que roubei da tua casa no primeiro dia que te vi. E leio a dedicatória que me escreveu na primeira vez que esteve na minha casa.

Este livro já é seu, assim como eu.

Páginas soltas pelo chão. Corpo entre folhas. Mãos na lateral do meu ombro. Me viro como peão, minha cabeça em discordância com meu corpo. Giro, giro, giro, giro, giro, giro, giro, giro, giro, giro, giro, giro, giro, giro, giro, giro, giro. Mão na lateral do meu ombro.

 “a vida não é uma canção. É só isso. Viver.”

E parece que ouço uma melodia.

Sem coreografia, recolho as páginas do chão. E imagino passos entre as folhas.

Próximo

Close your eyes
close to my eyes 

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Do teu medo

Meus movimentos precisos te envergonham
e você não percebe a tua risada gritada no ônibus

Você se mostra em todos os países do mundo, em todas as partes
mas se esconde em finais de junho

Meu beijo masculino te enrubesce
e teu coração para de bater por alguns minutos

a vergonha que você carrega ao lado desse medo infantil
te deixa vulnerável como numa canção feminina e...

... ainda assim você se silencia frente aos meus modos, minhas maneiras...

Não te peço voz
Mas saiba que teu silêncio me entristece

Saiba que a tua risada no ônibus te mantém vivo
em nome de todos aqueles que foram amarrados em postes e deixados para morrer

Cada abraço escondido
Cada beijo negado
Cada silêncio exigido
Cada palavra engolida

É um corpo – feminino ou masculino – morto
O teu silêncio carrega sangue.

O teu medo fortalece o punho do outro
Enfrente-se
Me enfrente

E, por fim,
saiba que todos sabem, mas se silenciam porque têm medo do que o teu medo é capaz.


segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Que...

Que o teu corpo nu me dá o direito de te violar
Que o teu copo cheio me dá o direito de te violar
Mas quando me violam me calo tanto quanto você porque não posso admitir que durante alguns minutos eternos fui como você

Que a tua roupa me dá o direito de te violar
Que a tua fala me dá o direito de te violar
Mas me calo frente a membros que me rasgam porque não consigo verbalizar a dor que me aproximou de ti

Que o teu medo me dá o direito de te violar
Que o teu sorriso me dá o direito de te violar
Mas apago da minha memória todas as mãos no meu corpo viciado em culpa porque eu nunca poderia dizer que fui como você

Que a tua sexualidade me dá o direito de te violar
Que a tua paz me dá o direito de te violar

Mas guardo um segredo no passado esquecido e na cicatriz da minha perna porque ninguém pode saber que durante aqueles malditos minutos alguém achou que era como você.

Das mãos

Hoje eu cortei as linhas das minhas mãos
Raspei os três calos em cada palma
Sangrei a pele grossa da ponta dos dedos, eliminei minha identidade.

Com o lápis deste texto marquei três círculos nas dobras do meu dedo que confirmam minha positividade
ou negatividade
ou imparcialidade.

Costurei minha ferida com o grafite.

Com as mãos em punho, não se vê nada
Só as marcas do cigarro nas articulações
Se você sabe ler as linhas,
eu abro minhas mãos e deixo seus dedos passarem pelas linhas que criei:

Há uma história ancestral que fui apagando com a ponta do lápis.
E há essa nova história que decide-se deixar que você me conte.

Seus dedos estão vermelhos do meu sangue.
Tire sua blusa e deixe que eu marque minhas mãos nos seus peitos.
Pronto. Agora você tem minhas duas histórias:
Ancestral e Primal,

porque é assim que sei contar minha(s) história(a):

De corpo para corpo.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Do medo


Medo de mulher
Medo do feminino
Medo da feminina
Medo da histeria
Medo da maternidade...
... do leite materno
... do substituto do leite
... da vontade
... do corpo

há homens que nos fazem mais homens
há homens que nos fazem mulheres
há homens que não existem
há homens que nos dão medo
há homens com medo
e há homens que nos dão medo porque têm medo

Tenho medo do meu feminino
Vergonha do meu masculino
Nojo da minha feminina

Vergonha...
... do meu pulso
... dos meus braços
... da minha risada no ônibus
... do meu olhar na rua (eu uso óculos escuros para meu desejo esconder)
... da minha perna cruzada
... do meu tom de voz, do meu tom de ser
... do meu rosto
... da minha calçada

Há uns que são mais
Outros que podem ser mais
E algumas que não podem ser nada

E nós, todos nós. Todos que não aguentam de vergonha, de medo e de desejo.

Uma pena que o desejo seja masculino
Pois então, que seja vontade. Só vontade.

Porque no fundo, ser esse homem masculino, destrói a feminina

Porque no fundo, ser homem destrói.