sábado, 17 de outubro de 2015

Poesia Romântica

Poesia romântica,

se vem de trovador
se vem de Pessoa
se vem na voz de Bethania
ressoam em você

Poesia de amor,
se é feminina
na voz do Chico
na voz do Caetano
ressoam em nós

Sonetos de afeto,
feitos por Camões
feitos por Vinícius
feitos por Espanca
ressoam na sua voz

Quando falta melodia
Quando falta voz afinada
Quando falta rima
Quando falta voz
Quanto falta tudo,

mas ainda assim é amor...

como dizer que aquele segundo teve todo tempo do mundo
que aquela mão no meu peito
que aquele beijo
que aquele corpo
que aquele pelo na minha boca
que aquele desejo

me fez girar e correr te procurando por toda a minha vida
porque eu sei que vou te encontrar.

E nesse dia, vou saber rimar, cantar e ler.
Vou te mostrar que esse amor ignorante é pura ode.


quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Metro pieces

Para Yoko Ono 
que me instrui aos poucos


Metro #1
Entre duas linhas paralelas
trace um objetivo
caminhe pelo nosso objetivo
sem esperar que essas linhas se cruzem


Metro #2 (em inglês, escrita em 2012)
Subway piece
Two heavy books in my hands
Next time around in my ears
Tall man in front of me
Reading glasses woman by my side
Blue eyes flirt standing
Smiles
look down
77 stop
Have to go
home
alone
again

Metro #3
Ratos
Lixo
Fedor
Vontade de trepar

Metro #4

porque eu não sei fazer selfie, mas acho assustadoramente romântico
um metrô
vazio
às duas da manhã



domingo, 23 de agosto de 2015

Nu

Meus movimentos precisos te envergonham
e você não percebe a tua risada gritada no ônibus

Você se mostra em todos os países do mundo, em todas as partes
mas se esconde em finais de junho

Meu beijo masculino te enrubesce
e teu coração para de bater por alguns minutos

a vergonha que você carrega ao lado desse medo infantil
te deixa vulnerável como numa canção feminina e...

... ainda assim você se silencia frente aos meus modos, minhas maneiras

Não te peço voz
Mas saiba que teu silêncio me entristece

Saiba que a tua risada no ônibus te mantém vivo
em nome de todos aqueles que foram amarrados em postes e deixados para morrer

Cada abraço escondido
Cada beijo negado
Cada silêncio exigido
Cada palavra engolida

É um corpo – feminino ou masculino – morto
O teu silêncio carrega sangue.

O teu medo fortalece o punho do outro
Enfrente-se
Me enfrente

E, por fim,
saiba que todos sabem, mas se silenciam porque têm medo do que o seu medo é capaz.


Me enfrente...

...nu

Morto iminente
não por morar em São Paulo, não por ser brasileiro

Corpo marcado
pela peste, pela promiscuidade minha e dos outros

Vergonha alheia
da minha voz, da minha mão, do meu som

Faça silêncio
Não corra
Não cruze as pernas
Não me toque
Não ande comigo

Vida permeada pelo não.
O único sim é o da morte
e não porque todos morrem, só porque alguns morrem marcados pela vergonha

Não seja assim
Não faça assim
Não seja.

Mesmo saudável somos doentes.
Mesmo sozinhos somos coletivos.

Se calam sobre o meu corpo
clandestino
silenciado


 Deixe-se ser nu

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Fobias do(s) medo(s)


Para os queridos do Chá dos 5 
(que deram espaço para o professor 
falar deixando uma brecha pr'esse 
mal-ajambrado poeta criar....)



   Medo de mulher
Medo do feminino
Medo da feminina
Medo da histeria
Medo da maternidade...
... do leite materno
... do substituto do leite
... da vontade
... do corpo

há homens que nos fazem mais homens
há homens que nos fazem mulheres
há homens que não existem
há homens que nos dão medo
há homens com medo
e há homens que nos dão medo porque têm medo

Tenho medo do meu feminino
Vergonha do meu masculino
Nojo da minha feminina

Vergonha...
... do meu pulso
... dos meus braços
... da minha risada no ônibus
... do meu olhar na rua (eu uso óculos escuros para meu desejo esconder)
... da minha perna cruzada
... do meu tom de voz, do meu tom de ser
... do meu rosto
... da minha calçada

Há uns que são mais
Outros que podem ser mais
E algumas que não podem ser nada

E nós, todos nós. Todos que não aguentam de vergonha, de medo e de desejo.

Uma pena que o desejo seja masculino
Pois então, que seja vontade. Só vontade.

Porque no fundo, ser esse homem masculino, destrói a feminina

Porque no fundo, ser homem destrói.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Todo corpo e o corpo todo

Todo corpo
E o corpo todo
Deve ser respeitado

Todo mundo
No mundo todo
Deve ter um orgasmo
            (incluem-se os não-orgasmos, se o corpo assim desejar)

Toda pessoa
De todas as maneiras
Deve estar ciente das leis dos desejos
            (incluem-se carnais e metafísicos)
            (excluem-se os de consumo e de benefício financeiro)

Todas as maneiras que se possa desejar
Que seja em carne ou espírito
   em toque ou mente
realista, simbolista ou concretista
síntese ou prolixia
Vale!

Se não houver corpo, que haja mente
E se alinhar mercúrio e saturno, deixe o corpo tomar conta da mente

Lembre-se que desejo, quem rege, é o corpo
Apague-se dos desejos de ordem material
Inteire-se dos corpos desejosos de vontade sexual
Deixe-se nas anti-leis da matéria e viva a experiência carno-corpóreo-canibal.
Assim. desse jeito